Capitulo 19
janeiro 24, 2019
Mirou-o.
Avançou
em curtos passos na sua direcção. Respirando fundo, relembrou todo o
medo, toda a duvida que a dominava. Já nada a podia impedir de o
fazer. Combatendo toda a ânsia, erguia-se o desespero, a raiva, a
necessidade de o saber.
Os
seus lábios movimentaram-se mas nada se ouviu para além do silêncio.
Pronunciavam-se, no entanto, milhares de palavras naquela troca de
olhares e todas pertenciam à rapariga.
Voltou
a sugar para dentro de si o ar que a envolvia, como se toda a força que
necessitava estivesse nele presente. Assim, rompeu o silêncio:
- O que sentes por mim?
O
rapaz fitou-a, perplexo com tais palavras. Estava em choque, paralisado
com o que ouvira. Nunca acreditara que ela fosse capaz de o perguntar.
Nunca pensara em resposta para tal questão. Nunca fora tão fortemente
confrontado com esta realidade de sentimentos capazes de destruir a
amizade, o companheirismo, que há já tanto tempo durava, a ligação que
tanto levou a ser construída.
Na
verdade, também o sentia. Sempre que a olhava, uma espécie de desejo
corrompia-lhe o corpo, assim como uma necessidade genuína de a beijar,
uma extravagância de emoções que lhe acariciavam a alma… Ela não o podia
saber. O receio de a magoar, de a afastar de si, era tão grandioso como
este novo mar de sensações.
Como
agir? O que responder? Sabia que a magoaria. Não sabia
como processar tais sentimentos. No entanto, queria guarda-la para si, a
ideia de a perder era simplesmente avassaladora.
Conhecia-se,
tinha medo. Mudar o rótulo entre os dois, seria mudar cada pedaço da
sua relação. Não estava preparado. Perderia a sua amizade se a magoasse e
isso era a última coisa que queria neste mundo.
A
solução que encontrou era pôr fim a todos os sonhos, a todo o
sentimento, a tudo que se passava na cabeça da pobre rapariga. Tinha de
abdicar de qualquer emoção para prosseguir seu amigo, para a preservar
perto de si sem a magoar.
- Nada. - Pronunciou friamente.
- Obrigada pela tua sinceridade. – Sorriu, olhando-o nos olhos pela última vez.
Virou
costas, partiu. Começou a longa caminhada até casa, a longa caminhada
que seria apenas o primeiro passo para o esquecer. Chorava enquanto
morria um pedaço da sua alma, o mais importante. A sua poesia, a sua
música, os seus sonhos.
E ele? Ele ficou a vê-la partir.
Escrito em Abril de 2010

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