Durante o dia de ontem e todo o
de hoje, as minhas redes sociais foram invadidas por imagens e publicações
relacionadas com buracos negros. Quem me conhece, sabe que sofro de perturbação
obsessiva compulsiva (POC) e um dos meus maiores triggers é, nada mais, nada menos, que o universo, principalmente, o
conceito de buraco negro. Preparei-me o dia todo para um possÃvel ataque de
ansiedade ou de pânico que, surpreendentemente, não aconteceu. Claro que evitei
a todas as custas abordar o assunto, mas praticamente todos os meus amigos (vá,
um deles pediu para não se falar disto à minha frente) se esqueceram e quiseram
falar sobre o tema comigo.
A verdade é que fiquei extremamente
feliz por não ter tido nenhum ataque de pânico e, sinceramente, a imagem real
de um buraco negro quase que aniquilou a ideia aterradora que tinha de um. Isto
fez-me questionar o porquê da minha POC e se será possÃvel estar mesmo “curada”.
Bem, deixei de fazer qualquer tipo de
medicação para a POC há mais de um ano e raramente tenho ataques de pânico ou
ansiedade, mas isto não quer dizer que consiga fala da morte ou do universo,
apenas significa que não tenho pensado nos assuntos. Ou seja, a obsessão está
tratada, mas qual o porquê dela? Questionei-me, então, se teria apenas medo do
desconhecido. Nunca fui uma pessoa de correr riscos e sempre evitei tomar opções
que, de alguma maneira, transtornassem a minha estabilidade. Odeio mudanças,
odeio a ansiedade que me traz alterar a minha rotina. Custa-me conhecer pessoas
novas, custa-me relacionar-me. Tenho medo que me julguem, tenho medo de quebrar
regras. Não sei dizer o que sinto. Não sei agir quando não prevejo as consequências
e, muitas vezes, faço, inconscientemente, sabotagem comigo mesma para as coisas
não se alterarem.
Estava a passear a Nala e a
Brownie no quintal e a olhar para o céu, caminhando pé ante pé, enquanto elas
corriam na direção oposta à minha. Parei e pensei: é a isto que sabe a vida a
passar por mim. Uma força que não pára, enquanto dou pequenas passadas a
caminho de um fim. Senti uma necessidade de agir, de quebrar barreiras, medos. E
se fosse livre de fazer o que quisesse? O que faria?
Gostava de viajar pelo mundo.
Gostava de pegar nas cadelas e ir passear sem rumo. Gostava de ser cantora, de
me dedicar de verdade ao que amo fazer – porque me sinto completa a cantar,
livre. Não deixava nada por dizer. E acho que este é o ponto mais importante.
Tenho escrito imenso nos últimos dias, páginas inteiras de palavras que gritam
dentro mim e nunca tenho oportunidade de as dizer. Porquê? Porque tenho medo do
desconhecido, das respostas, da mudança. É tão simples quanto isso. Entrei num cÃrculo
vicioso e não sei como o quebrar. E se não houver problema em mudar? E se o
estranho não tiver de o ser? E se o desconhecido for melhor do que o limbo?
Um amigo meu disse-me
recentemente: "Quando a vida está demasiado estável, é porque nos habituamos a ela e nos
estamos a esquecer de ser felizes. Está na hora de dar uma agitadela."
E se não tivesses correntes, o
que farias? E se não houvesse medos, o que dizias?



