Há pouco mais de 2 semanas, estava eu a escrever sobre como queria aproveitar os meus 29 anos para viver. Para quebrar as minhas correntes e para me encontrar. Aos 29 anos e 10 dias, são mais pesadas as incertezas que qualquer uma das minhas resoluções.
Cada vez o amanhã se torna mais incerto. Cada vez mais, o que tomei por garantido se dissipa na imprevisibilidade da vida.
Tomamos como certo o despertar amaldiçoado de segunda-feira, o pão com queijo e a meia de leite do pequeno almoço, o trânsito para o trabalho e a falta de estacionamento, os sorrisos de quem nos recebe, o calor das nossas amizades e de quem nos faz sentir em casa.
Amanhã é segunda e não sei a que horas vou acordar, não sei o que vou almoçar, com quem vou falar, ou, sequer, que vou fazer. Mas sei, sim, quem não vou ver. Sei que não vou apanhar trânsito para o trabalho e sei que ninguém me vai sorrir de manhã quando quase gritar um “Bom Dia!” a transbordar felicidade. E não sei quando vou ver a minha mãe, que volta amanhã de Inglaterra, não sei quando vou ver as minhas avós, não sei quando vou voltar a ver quem quer que seja. Não sei quando vou voltar a ver o mar, não sei quando vou voltar a ir jantar fora ou ir ao cinema, não sei quando vou voltar a abraçar alguém. Não sei quando vou ser contaminada pelo vÃrus ou se o vou ser, sequer. A única coisa que sei foi que esta pandemia trouxe ao de cima a desumanidade que corre nas veias do ser humano. O ser humano que rouba máscaras e luvas, que esvazia prateleiras de bens essenciais à comunidade, que vai festejar a chegada de um vÃrus que pode levar alguém de quem mais gostamos.
E não me estão a pedir nada de extraordinário. Só tenho de ficar em casa, trabalhar no computador e distrair-me nos tempos livres. Como sou mestre na arte de não fazer nada, não é isto que me afecta, de todo. Custou-me, sim, aperceber-me como levo a vida com demasiada leviandade. Que nunca dei valor ao simples facto de poder sair de casa, ou, sequer, de ter uma casa, nunca dei valor à minha liberdade ou ao amanhã, que sempre tomei como garantido, adiando decisões em sua função. Esqueci-me que a vida pode mudar de um dia para outro. Esqueci-me que tomar alguém como garantido na nossa curta metragem é um erro crasso.
Comecei a pensar em tudo isto nestes dias de isolamento voluntário (também sou mestre da arte de pensar em demasia), comecei a reavaliar as minhas decisões, hábitos, as minhas correntes. E, quando dei por mim a pensar no que vou mudar depois do véu da pandemia desaparecer, apercebi-me, quase de imediato, que estou, mais uma vez, a adiar a vida. “Para a próxima, tento…”, “Não houve oportunidade…”, “Oh, não deu porque…” “Estava lá mais gente…”, “Amanhã…”, “Para o ano…”, “Não aconteceu nada mas, para a semana…”, “Para o mês que vem começo a…”. Ando sempre com desculpas. Sempre com desculpas que não só atrasam como, também, cancelam a vida. Desculpas que advêm do medo do desconhecido, do medo de não dar certo, do medo de abandonar a ilusão, do comodismo. E, se há coisa que podemos tirar desta pandemia, é que o amanhã não é certo. Não estou a dizer para saÃrem a correr de casa e fazer aquela viagem de sonho agora, de todo (fiquem em casa, por favor)! Mas podem começar a planeá-la, podem começar a tocar piano (ou outro instrumento qualquer), podem começar a ter um plano de exercÃcio, a comprometer-se a tratar dos vossos animais, a ver aquele filme, aquela série, a aproveitar a vossa famÃlia, a escrever aquele livro, a mandar aquela mensagem com tudo o que sempre quiseram dizer, a relembrar aquela pessoa como é importante para vocês. Podem fazer aquele curso, aquela receita que sempre vos deixou com água na boca, aquela cover que têm planeada há 3 anos, aquela pintura, voltar a ler, fazer a lista do que se vão obrigar a mudar quando isto acabar… Há uma imensidão de coisas que sempre deixamos para amanhã. Deixem para hoje.
E quando o céu se abrir, que estejamos limpos para novos começos.


















































