04:05h
Sentia o chão frio da tijoleira a beijar-lhe o rosto, enquanto a roupa ficava ensopada naquele líquido quente. O medo despedia-se dela, aos poucos, dando lugar à tranquilidade. Sentia-se quase que como a flutuar, como tantas vezes o fizera numa maré mais calma.
Ainda que com alguma dificuldade em focar, conseguia ver os seus ténis a passearem-se naquela que, em breve, deixaria de ser a sua casa, pintando um caminho em tons de vermelho, por onde passavam.
Sabia que o gato estava a salvo, escondido debaixo do armário. Conseguia vê-lo daquele ângulo. O seu gato... Nunca lhe tinha dado um nome e, agora, o que seria dele? Quem cuidaria do seu gato laranja? Os seus pais? Os seus pais... Sentia saudades do colo da sua mãe, das brincadeiras do seu pai... Esperava que soubessem. Deviam saber.
Sentia sono. Sentia-se cansada, como nunca antes se sentira. Uma leveza, uma tranquilidade... Estava a perder-se de si. Mas não como antes se perdera naqueles olhos azuis que sempre a assombraram.
Os mesmos olhos azuis que há poucos minutos a olharam uma última vez. Ou teriam sido horas? Ainda sentia o seu cheiro. Imagens iam desfilando em forma de slide na sua mente, mostrando-lhe todas as vezes em que ele caminhou na sua direção a sorrir. Todas aquelas primeiras trocas de olhares que sempre a fizeram acreditar que ele era a escolha certa. Que ele a amava.
Cerrou os olhos sem dar por ela e, ainda a sorrir, deixou-se levar pela maré.
03:15h
Acordou, sobressaltada, com aquele que assumiu que seria o barulho resultante do vento levando a portada de ferro a encontrar-se, brutalmente, com a parede de pedra. Não havia sinais do gato. Provavelmente, tinha-se assustado.
Decidiu ignorar o barulho, cerrando os olhos de novo. Quando o fez, pensou ter visto a cortina a dançar com o vento. Como seria possível? Sabia que as janelas estavam fechadas. De onde viria a corrente de ar?
Mais outro estrondo. Desta vez, conseguiu distinguir o som do vidro a estilhaçar-se em mil pedaços. Algo não estava bem.
Agarrou o telemóvel de imediato, marcando o número do 112, para chamar, o mais rápido possível, se os seus medos se confirmassem. Deixou-se permanecer na cama por mais uns momentos, tentando decifrar os barulhos por entre o silêncio da noite.
Um estalo da fechadura. Alguém conseguira entrar. Deslizou para debaixo da cama, lentamente, descobrindo que fora este o sítio que o gato escolhera como esconderijo.
À sua frente, uns ténis Nike desfilavam, pé ante pé, pelo corredor.
Premiu o botão de chamada.
*Continua*





