Capitulo 20

outubro 30, 2018


Deitaram-se. Cada um na sua casa, cada um no seu quarto, na sua cama. Tinham os olhos postos no teto e, ao mesmo tempo, no infinito. Ela de coração partido, ele de alma enrodilhada. Ela gostava dele mais do que imaginava, ele guardava um lugar para ela nos seus pensamentos, mas não estava pronto para lhe dar o que ela queria. Não a queria magoar. Era a única certeza que tinha. 

Sabia que havia mais, sabia que ele lhe tinha mentido. Sentia-o em cada olhar que trocavam, em cada toque, em cada silêncio. Mas não ia fraquejar. Não desta vez. Ia respeitá-lo. Ia aceitar a sua resposta. Mas ia, também, revisitar todas as conversas, todas as miradas, toda aquela dança sincronizada de ações. Sabia-se confusa, magoada. Era a única certeza que tinha. A certeza do peso que carregava ao peito. 

Não sabia como a tratar. Gostava dela. Do conforto que ela lhe transmitia. Mas sabia não ter, em si, o necessário para lhe dar. Toda ela era um poço de carência, de emoção. Todo ele era, apenas, um poço de nada. Preferia magoá-la agora que um dia mais tarde, com mais intensidade. E era ela, no momento, a sua prioridade. 

Rebolou-se na cama por horas. Qualquer linha de pensamento prendia-se nele. Esperava uma mensagem, uma chamada, uma visita inesperada que a levasse a esquecer o que se tinha passado. Insultava-se. Tinha-o perdoado logo na primeira passada que deu para se afastar. Desejou-o de volta no primeiro segundo em que se decidiu distanciar. Amava-o. Voltou a insultar-se. Como podia estar tão dependente de alguém que não retribuía o mínimo do sentimento?
 
Não iria falar com ela. Não iria piorar a situação. Não a queria longe, mas sabia que qualquer contacto despertaria nela uma maré de sentimentos e de esperança. Iria afastar-se.

Não valia a pena mantê-lo por perto. Só lhe traria sofrimento. Mas… gostava dele. Era a sua única verdade. Gostava do seu jeito terno, da sua timidez, da sua inteligência. Da sua preocupação. Gostava do seu olhar, das suas costas, do toque das suas mãos. Gostava de como o seu cheiro despertava nela todos os sentidos e todos os desejos mais carnais. Gostava dele por inteiro. Ele levara-lhe a alma e, ainda assim, encontrava em si réstias de esperança. 

Ela não devia gostar assim tanto dele. Seria uma coisa passageira. Efémera. Ela seria mais feliz assim. E ele também. 

Estava cansada. Doía-lhe a alma e o corpo.

Estava cansado. Tinha-a magoado. 

Adormeceram. Ela sonhou com ele e ele não sonhou.



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Há uns anos atrás, escrevi o Capitulo 19, um capitulo de uma curta ficção inacabada, no meu outro blog. Já o publiquei aqui e quis continuá-lo. Gosto de escrever pequenas histórias. Gosto de explorar sentimentos que não os meus. Por enquanto, fica aqui um retalho deste romance.

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