Sonhos
fevereiro 03, 2020
Acordou sobressaltada. Tinha caído, de novo, durante o sonho. De olhos entreabertos, apercebeu-se que ainda não tinha amanhecido. No entanto, sentia-se completamente desperta.
Viu o gato laranja enrolado no fundo da cama, iluminado pela luz do candeeiro de rua que entrava pelos buracos da persiana. Sorriu. Perguntava-se que horas seriam quando decidiu movimentar o braço em direção ao telemóvel, constatando que o mesmo se encontrava preso. Tentou mover-se de novo, mas algo amarrava o seu pulso direito. Aflita, sentou-se na cama num salto e, com a mão livre, destapou-se para tentar ver o que a prendia. Um fio de lã estava atado em volta do seu pulso. Puxou o fio azul, apercebendo-se que o mesmo se prolongava para lá da porta do seu quarto. Estaria ainda a sonhar? Levantou-se da cama, sentindo o chão gelado a tocar nos seus pés descalços. Não podia ser um sonho. Caminhou em direção à porta, acendendo a luz ao passar pelo interruptor. Olhou pelo corredor e viu a continuação do fio que passava por baixo da entrada de sua casa. Puxou, mais uma vez, numa tentativa frustrada de o tentar romper, mas sem sucesso. Aproximou-se da porta de ferro em passadas curtas e rodou a chave duas vezes até a abrir.
Onde antes assentava a tijoleira branca do chão da sua entrada, encontrava-se, agora, terra húmida de onde brotavam árvores tão altas como nunca antes vira. No topo das árvores, abriam-se rasgos por onde passava a luz de uma lua cheia que mal tocava o solo. Sons de mil animais rompiam o silêncio da escuridão noturna. Saiu, num impulso, de casa e estava, agora, no meio da floresta. Respirou fundo, deu mais um passo e sobressaltou-se ao ouvir a pesada porta a fechar. O que se estava a passar? O medo chegava em forma de formigueiro, mas sabia que não tinha outra opção se não seguir o fio para se libertar. Continuou.
À medida que avançava, a mata cerrava-se. O vento começava a fazer-se sentir, fazendo bailar os ramos mais altos das árvores. Vindo de nenhures, um vulto em forma de sombra passou a seu lado fazendo-se ouvir numa voz familiar: “Não vais conseguir”, desaparecendo na escuridão, na mesma velocidade em que aparecera. O que era aquilo? Estava a sonhar, só podia estar a sonhar! Olhou em seu redor para se certificar que estava sozinha. Tudo a fazia acreditar que sim, decidindo avançar pelo trilho. Desta vez, vindos de ambos os lados, dois vultos cruzaram-se em sua volta.
- Não és capaz.
- Não devias estar aqui.
Rodopiou sobre si, tentando seguir, com o olhar, as sombras que se perderam na floresta. Conhecia as suas vozes.
- Não és boa o suficiente.
Fazia-se ouvir uma voz atrás da sua nuca, que a levou a rodar sobre si mesma. Foi aí que as viu. Centenas de sombras negras vindas da penumbra da floresta. Não tinha como fugir, vinham de todos os lados. Sentiu o medo a apoderar-se de si quando outra voz suspirou:
- Devias desistir.
Estavam, cada vez, mais próximas.
- Isto não é para ti, sabes?
- Devias fazer alguma coisa, totó.
À medida que a encurralavam no seu centro, as sombras começaram numa dança a seu redor, ecoando vozes que trazia no peito:
“És demasiado complexa. Devias usar os teus talentos noutro lado. Estás com mau ar. Ele não gosta de ti. Estás mais gorda. Não tens coragem de agir. Ele gosta de ti. Ela odeia-te. Estás demasiado magra. És tão lamexas. És tão dependente. Ele disse-me que não queria saber. Ela disse-me que eras falsa. Porque mentes? Não sei se gosto da tua personalidade.”
- Parem, por favor. – Pediu, sentindo o desespero a apoderar-se de si – parem, por favor!
“Nunca vais ter o que queres se continuas assim. É bom teres sonhos. Devias lutar. Devias ir embora. Não tens amigos. És doente. Tens de esquecer. Quando te tornaste tão fria? Estás sempre sozinha. És tão necessitada de atenção.”
Sentiu as lagrimas a aquecerem-lhe o rosco, escondidas no meio das gotas da chuva que nem se fizeram sentir. Deixou-se cair sobre os joelhos, tapando os ouvidos.
“Só passa por isso quem quer. És mesmo artista. Eu não aguentava ninguém com as tuas emoções. És tão egocêntrica. Tens de dizer que não. Tens de te mexer. Vais perdê-lo sabes, não sabes? Isso da ansiedade não existe. Coitadinha. És tão manipulável. És tão controladora. És tão obcecada. Tens de mostrar o que vales. Tens de lhe dizer. Tens de o fazer. Se não o fizeres, eu morro. És tão indecisa. És tão irresponsável. És tão irritante. Faz alguma coisa!”
- Parem… Parem… PAREM.
Gritou. Gritou como outrora gritara no carro, no chão, abafada por uma almofada. Gritou com tudo de si e as vozes não se calaram. Ouvia-se a si mesma, enquanto tremia, sentada na terra:
- Eu odeio-te… eu odeio-te…
E odiava. Odiava o facto de ser tão complexa aos olhos dos outros. Odiava a maneira como sentia tudo em demasia. Odiava os seus medos, as suas inseguranças. O não saber decidir. Odiava saber que gostava de ser quem era, mas que era impossível que os outros a compreendessem, quando era essa a única coisa que precisava. Que alguém fizesse o esforço de a compreender.
- Só depende de ti. - Ouviu uma voz dizer, no meio de todas as outras.
E só. Respirou fundo quando ainda soluçava. “Só depende de mim…”. Era a verdade, só ela se conhecia, só ela sabia o que já tinha vivido. Só ela sabia o que sentia. Só ela tinha de se aceitar e só ela podia decidir por si. Não as vozes. Não as vozes que conhecia de cor. As vozes que ecoavam na sua mente todos os dias e tinha aprendido a ignorar.
Levantou-se, sujando a cara de terra ao limpar as lágrimas. Ia continuar. Eram só vozes. Vozes às quais nunca tinha respondido, vozes que, outrora, tinha chamado e que, agora, a assombravam. As vozes que chamou por ter medo, as vozes que chamou por não acreditar em si e ter deixado, também, de acreditar nos outros.
Mas só dependia de si e ia avançando na escuridão com a chuva a banhar-lhe o corpo e certa que iria conseguir libertar-se. Vislumbrou uma luz distante no fundo do trilho, na direção oposta à que o fio a conduzia. E agora? Sabia que se continuaria a perder na floresta se seguisse o fio. Sabia que as vozes se iriam intensificar. Sabia de quem eram. Sabia o que diriam. Sabia que teria de passar por tudo outra vez. Tinha decidido que não. Tinha decidido que iria acreditar em si. Que iria seguir o rumo que queria.
“Tu não precisas da aprovação de ninguém. Tu és complexa e isso é o que te torna única. És boa pessoa. Tu esforças-te pelos outros e por ti. Tu sabes o que vales e nunca mais, mas nunca mais mesmo, vais ficar presa quem não te dá o teu valor.”
Usou a força que tinha e a que não tinha. Pensou em como tinha de fazer isso por si. E, pela primeira vez, por mais ninguém. O fio quebrou e correu em direção à luz, deixando para trás todas as vozes, tudo o que conhecia.
Tinha chegado ao fim da floresta e uma planície em tons de verde estendia-se até ao horizonte. Sentiu o sol a aquecer-lhe o rosto e o rio a correr em torno dos seus pés. Os pássaros cantavam à sua volta. As folhas verdes das árvores bailavam no azul do céu.
Estava livre e o passado era apenas passado.
Acordou.

1 comentários
Fabuloso...
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