De repente... a uma semana dos 29
fevereiro 26, 2020
29, porra.
Consigo senti-los a aproximarem-se, arrastando-se lentamente, num estado larvar, trazendo, consigo, o peso da idade. O peso das metas, o peso dos sonhos, o peso da insegurança.
Cheguei aos 29 ouvindo já o eco dos 30 no fundo da minha mente. Os 30… Porra, estou a envelhecer. E estou, ainda, tão perdida.
Deitei-me na cama com o meu carioca de limão e com duas cadelas a ocupar 80% do espaço disponível. Engraçado como dois cães conseguem representar a minha maior conquista. Maior conquista para além de mim, claro.
Ontem, fiz uma das maiores caminhadas da minha vida. Os trilhos da minha memória. Entreguei-lhe, sem medos, o passaporte, um bilhete só de ida, e lá fomos visitar os pequenos fragmentos de quem sou. E sou muito.
À medida que fui revendo a minha vida em forma de desfile, fui, também, tomando consciência da minha resiliência e, mais que isso, da minha inabalável capacidade de acreditar. Sempre fui extremamente ligada às minhas emoções, sempre fui uma fundamentalista nata, sempre sonhei para além do que devia, sempre pensei em demasia em todos os detalhes. E sempre achei que isso fosse mau. Mas, por vezes, acho que não. Por vezes, duvido que conseguiria ser tão feliz se fosse diferente. Se não vivesse tudo tão intensamente. Se não me apaixonasse todos os dias pela melodia do vento a bater nos galhos das árvores e a ser quebrada por uma qualquer ave a cantar vida. E, quase aos 29 anos, acho que posso afirmar que é esta a minha religião. A magia da vida, a magia da água do rio a correr para o mar, do azul do céu rasgado pelo verde das folhas das árvores, da harmonia dos sons da natureza e, acima de tudo, do amor. O amor que trago no peito pelas pequenas e pelas gigantes coisas, que significam mais que o mundo, para mim. O amor que grita, que me faz acreditar que é esta a razão de existir. O amor que canta em gargalhadas, o amor que partilha a minha cama todas as noites, o amor por quem que me fez gente, o amor do sangue, o amor que me olha nos olhos e faz vibrar cada partícula de mim, o amor que vejo projetado na escuridão do meu quarto quando o penso, o amor que tenho por mim, o amor que tenho pela vida.
Quase a chegar aos 29, sei que sou mais do que alguma vez fui e sei que só dependo de mim para o continuar a ser. Não quero com isto dizer que se é feliz sozinho, de todo. Só quero dizer que aprendi a ser a minha prioridade, aprendi a tratar de mim e aprendi que, apesar de toda a ajuda em cuidar desta criança ser bem-vinda, se ela não vier, está tudo bem. A minha jornada tem as portas abertas, mas é, acima de tudo, minha.
Caminhando para os 29 à mesma velocidade em que eles se dirigem até mim, sei que a Ana a uma semana dos 28 era uma Ana diferente e um pouco mais perdida que esta que carrego.
A verdade é só uma, sempre trouxe comigo a ideia da efemeridade. Sempre a sobrevalorizei e sempre foi ela que aguçou os meus sentidos e que trouxe o encanto ao cheiro da terra banhada pela chuva, aos tons de laranja de qualquer pôr do sol, aos abraços que transformam dois em um só. É, por tudo isto, que este ano vou tentar viver ao som dos acordes da brevidade do tempo. Tentando encontrar-me sem demoras, sem grandes delongas em discursos que repousam no caixote do lixo. É um ano de mudança, é um ano de vida a bramir em mim e a acontecer a cada instante. Vida que não espera, vida que não aguarda, vida que não pode ser desperdiçada.

0 comentários