23 de Outubro
outubro 24, 2018Ontem, foi um dia extremamente marcante e, só já de madrugada, caí em mim e fiquei envolvida na panóplia de emoções que fui acumulando.
Acordei, de manhã cedo, para me deslocar até Guimarães. Fui
convidada pela Professa Teresa Rachinhas, uma pessoa e professora excecional,
para falar sobre a minha experiência direta com o bullying e sobre a minha
saúde mental. Estes dois temas andam de
mãos dadas. O bullying é feito com o intuito de causar dor, mágoa, a alguém,
recorrentemente. Por sua vez, esta acumulação esta dor e também a ansiedade
causada pelos colegas, pode levar à depressão e a outros problemas do foro
mental. E, em alguns casos, a falta de saúde mental pode, até, levar ao
suicido. Eu cheguei a este extremo, e, por sorte, impediram-me de levar esta
ideia avante. De facto, depois de publicar o meu texto sobre o bullying, muitos
colegas da altura contactaram-me para partilhar, também, as suas histórias e,
surpreendentemente – e assustadoramente –, a maioria deles desenvolveu algum
tipo de perturbação mental.
Ontem, apresentei, então, duas sessões para as turmas do 9º
ano do Agrupamento de Escolas Santos Simões, contando todo o meu percurso desde
o bullying até à POC. Durante ambas as sessões, consegui sentir a atenção dos
alunos focada em mim. Consegui sentir que, de alguma maneira, lhes estava a
passar a mensagem que pretendia. Que o bullying é errado, que pode causar
sequelas para toda a vida, mas que, também, é só uma fase na vida de quem o sofre.
Que, eventualmente, vão separar-se dos agressores e que tudo vai passar. Que é possível dar a volta por cima e ser-se
feliz. É possível ter amigos, ter um trabalho que gostam e, o mais importante,
é possível atingir os sonhos que levamos connosco.
Foi extremamente gratificante para mim. Tudo o que faço, é
com o propósito de ajudar, de alguma maneira, alguém. Este blog, o meu trabalho
em investigação em ciências da saúde, sempre foi esse o meu foco. E acreditem
que, para mim, é extremamente difícil trabalhar com HIV quando se tem POC. Mas
é um esforço que compensa. Foi por isto que escolhi ser cientista.
A manhã correu lindamente. Fui feliz para casa, a saber que
se seguia uma tarde ainda mais desafiante.
A Maria João, uma pessoa que, para além de ser minha
professora de canto, é, também, uma das pessoas que mais admiro e de quem mais
gosto, convidou-nos para ir cantar a um casamento – o primeiro casamento em que
cantei. A Maria João tem o dom, e digo
isto em tom de brincadeira, de explorar o meu estofo psicológico ao limite.
Fui, com ela, ao primeiro casting da minha vida, em Lisboa, que, por caso, foi
diretamente com o Filipe La Féria, no teatro Politeama. Claro que o primeiro
casamento a que me levou foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da
minha vida. Foi um casamento realizado num corredor do Hospital. Fomos cumprir
o último desejo de um paciente com cancro, o desejo de se casar com a mulher
que ama, com a mãe da sua filha bebé. Foi um casamento envolto em amor, dor e
felicidade. Eu, simplesmente, não sabia o que sentir. Era demasiado para
processar na altura e só queria ajudar a tornar este momento mais feliz ainda,
e tenho a certeza que foi um dos mais bonitos que vou presenciar enquanto for
viva.
Convidei os meus amigos para um café depois do jantar (não
jantei porque não tinha fome, nem vontade de comer, apenas tinha vontade de
estar com alguém). Era noite de Karaoke no pão de forma, mas não queria cantar,
estava sem voz e queria só aproveitar a amizade de quem estava comigo. Nunca
falei, nem devo falar, no blog de coisas do meu foro íntimo atual, mas posso-vos
adiantar que sou um caos. Sinto demasiado, gosto desmedidamente e magoo-me imenso.
E, nesta fase, não estou, propriamente, feliz. Bem, o Rui inscreveu-me para
cantar umas musiquinhas e foi mesmo aí, no palco, com aquela pressão de ser o
foco quando queria fechar-me, que me caiu o chão. Todas aquelas emoções que fui
acumulando durante o dia chegaram em modo de tempestade. Fui para a casa de
banho, sentei-me no chão, e fiquei ali, só comigo mesma, a respirar. Não estava
triste, não estava feliz, estava só perdida numa maré de sentimentos que ainda
não percebo.
Fiquei várias horas na cama só a pensar nisto. No quão confusa
é a vida. Na montanha russa de emoções que há em mim. No quão efémera é a nossa
estadia neste mundo. No impacto que os outros podem ter em nós, no impacto que
podemos ter nos outros. Na imensidão do sentimento que carrego comigo e no porquê
de o sentir. Sinto-me à deriva. A única coisa que sei é: não percam a oportunidade
de seguir os vossos sonhos, não guardem ou escondam o que sentem, arrisquem. A
vida é demasiado curta e o que importa realmente é ser-se feliz. Os medos são apenas
medos, porque nunca se sabe o dia de amanhã.
Hoje, só quero agradecer à Professora Teresa e à Maria João
por me terem proporcionado dois dos momentos mais marcantes da minha vida.


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