A Minha POC

outubro 10, 2018




Hoje, em celebração do dia mundial da saúde mental, decidi escrever algo que já andava a planear há algum tempo.  Hoje, vou falar sobre a minha saúde mental.

Como já contei em publicações anteriores, comecei a ter ataques de pânico quando tinha apenas 12 anos. Nessa altura, nas aulas de físico-química, fui confrontada com a ideia da efemeridade da vida, da grandeza do universo e de que tudo o que conhecemos terá, inevitavelmente, um fim. A partir daí, fiquei obcecada com a ideia de um dia vir morrer, pensando nisto todos os dias, todas as noites, o que me provocava ataques de pânico. Os meus ataques de pânico (e digo meus porque cada um tem a sua experiência no que toca a ansiedade e pânicos), são a pior experiência pela qual passei na vida. Também tenho ataques de ansiedade, mas os meus não são, de todo, equiparáveis aos de pânico. Estes últimos duram apenas segundos. Segundos de horror em que sou confrontada com a ideia de que vou deixar de existir, em que tenho uma enorme descarga de adrenalina, em que berro, em que tenho espasmos, em que só penso que vou desaparecer. Para mim, é como se tivesse uma arma apontada à cabeça e que a pessoa que segura a arma disparasse. São aqueles microssegundos de certeza que vão desaparecer naquele momento, que tudo vai deixar de existir.



Isto continuou até aos meus 19 anos, quando fui, pela primeira vez, ao psiquiatra (queixei-me todos aqueles anos à medica de família, que só me dizia para tomar valeriana). Cresci com medo de entrar na banheira e de dormir. Nos momentos em que a minha mente estava menos ocupada, os medos apareciam.  Tomava banho sempre com música, adormecia com a televisão e com o computador ligados, ambos a reproduzirem séries, para não haver possibilidade de me distrair dos sons. Foi quando estava lavar a louça na casa dos meus pais, que tive o maior ataque da minha vida. Este durou minutos. Nunca berrei e chorei tanto, sentada no chão, sem forças. A minha mãe tentava trazer-me à realidade, agarrada a mim e a pôr-me água fria na cara. Foi o meu pai que conseguiu, finalmente, chamar-me à razão. Fui, nessa mesma semana, ao psiquiatra.

Comecei o meu primeiro tratamento e as coisas foram melhorando. Conseguia sair à rua, deixei de ter ataques de ansiedade, estava feliz. No entanto, nunca deixei de ter ataques de pânico à noite (razão pela qual sempre evitei ter planos para este horário – na rua as coisas pioravam).

A ansiedade voltou a piorar quando, depois do mestrado, comecei a tentar emagrecer. Fiquei obcecada com a ideia de emagrecer e com ser o mais saudável possível. Tinha medo de morrer de cancro se comesse determinadas coisas e se tivesse excesso de peso. Nesta altura, até pão torrado e carne no churrasco deixei de comer. Tudo o que estivesse queimado podia prejudicar a minha saúde.
 
Tudo piorou quando entrei em doutoramento e comecei a fazer as minhas rotações laboratoriais. Foi em Coimbra, enquanto trabalhava no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que as coisas tomaram proporções drásticas. Trabalhava com amostras de líquido cefalorraquidiano para quantificar biomarcadores de Alzheimer. Não vou entrar em detalhes, mas naqueles laboratórios trabalham, também, com doenças altamente contagiosas e para as quais não existem cura. Para mim, a minha sentença de morte tinha chegado. Ia morrer infetada com priões (juro que tentei escrever sobre a doença, mas não consegui, ainda é mais forte que eu). Ou pior: já podia estar infetada. Para imaginarem ao ponto em que isto chegou, deixei de conseguir comer com as mãos, pegava em talheres com guardanapos por cima. Não tocava com o telemóvel na cara, não tocava com as mãos na cara. Nos gabinetes do hospital, não tocava nos sofás, não pousava a mochila no chão, tinha as mãos sempre pousadas no meu colo. Se tocasse no PC, como andava com ele no gabinete, não comia a seguir, porque as teclas podiam estar contaminadas. Só usava um par de botas para o laboratório que, mesmo depois de várias horas a levarem com a chuva de inverno, estavam, de certeza, contaminadas. Tudo para mim estava contaminado. Eu ia morrer. Foi nesta altura que colapsei. O sofrimento que estava a causar aos meus pais e à minha irmã era avassalador. Era demasiado. Comecei a procurar maneiras de suicídio não doloroso no google. Tinha chegado ao meu limite.
Soube que estava na altura de ir ao psiquiatra de urgência. Fui, ainda em Coimbra, diagnosticada com Perturbação Obsessiva Compulsiva (POC). A minha POC (e mais uma vez, minha porque cada um tem a sua POC), está relacionada com a minha obsessão com a ideia da morte, e tenho comportamentos compulsivos para evitar morrer. Com receitas de antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos, fui para casa de férias, com tudo separado em sacos. A minha mãe, enquanto eu não estava em casa, começou a tratar da minha roupa, para não me expor a esse stresse. Quando soube disto, desatei a gritar e a chorar porque também ela ia morrer contaminada. Começou a berrar comigo para me acalmar, que estava doida. Cheguei ao meu quarto. Tinha uma tesoura afiada comigo. Ia proceder ao que ainda não tinha tido coragem de fazer. A minha mãe, o meu pai, a João, todos estavam a sofrer por minha causa.... 

Tudo isto passou. Quando digo tudo digo: eu durmo de televisão apagada. Nunca mais tive ataques de pânico, nem de ansiedade. Quase dois anos depois, não tomo nenhuma medicação, estou “curada”. E digo “curada” porque isto é uma coisa crônica. Pode voltar. É provável que volte. Mas se voltar, estou preparada para lutar contra ela.

Bem, em dezembro de 2016, fui diagnosticada com POC. Grande parte das pessoas que conheço, sofrem, também, desta doença ou de alguma outra relacionada com ansiedade. Com esta publicação, para além de partilhar a minha experiência, quero alertar-vos para estarem atentos às pessoas à vossa volta e pedir-vos que, se sentirem algum destes sintomas, ou outros semelhantes, contactem, imediatamente, um médico especializado, ou peçam ajuda a quem vos é mais próximo. Foi isso que me salvou.


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1 comentários

  1. Parabéns Ana pela coragem em expor o teu caso de forma tão sincera e transparente!

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