Capitulo 22

outubro 21, 2019



Abriu os olhos só para ver escuridão e o desfoque avermelhado que marcava as quatro e vinte da madrugada. Voltou a cerrá-los, mas não foi a tempo de evitar a onda de pensamentos que, prontamente, a assombrou. “Porquê?”. Revia, mentalmente, todos os discursos que tinha preparado, quando apenas queria dormir. Abriu os olhos, fixou o teto branco do quarto. Estava condenada a si mesma. Esperou que o esgotamento lhe devolvesse o sono. 

O alarme tocava há mais de um minuto, quando despertou. Eram, já, oito e meia. Ainda tinha tempo. Desligou-o sabendo que o próximo tocaria em menos de quatro minutos, voltando a adormecer. 

Sentiu a cauda do gato a acariciar-lhe o nariz. Espreguiçou-se, olhou para o véu negro de nuvens que pintava o céu. Ouvia o barulho da chuva a bater nas janelas, no chão, nas folhas das árvores. Sorriu. Era como se a natureza combinasse com o seu estado de espírito. Abraçou a almofada. As memórias iam chegando e o nome dele ecoava na sua cabeça. 

Sentiu o ar gelado na zona do corpo que tinha descoberta. Tapou-se, por completo, com todas as camadas de roupa de cama. Como numa curta metragem, relembrou-a a descer os degraus, a sorrir-lhe, a aquecer-lhe o peito. Parecia-lhe feliz, diferente. Talvez nunca tivesse precisado dele. Talvez fosse tudo na cabeça dela. Talvez tivesse tomado a decisão acertada. Não tinha dúvidas.

Quanto tempo conseguiria ficar assim, deitada, a pensar nele? Constatou que, provavelmente, uma eternidade. Estava na hora de se levantar. Tinha decido que o seu futuro começava naquele mesmo dia. Que não dependeria de ninguém para além de si mesma. Nunca mais. Que se fosse esta a definição de amor, não valia assim tanto a pena. O importante era fazer-se feliz. Tratar de si mesma. Tinha reajustado as suas prioridades e, pela primeira vez, tudo era apenas passado. 

Talvez ela tivesse continuado com sua vida. Talvez não voltassem a ver o nascer do sol juntos. Talvez não se aventurassem mais em lugares por descobrir. Talvez não sentisse mais o desconforto que ela lhe trazia. Nem a calma. Talvez não a ouvisse mais a rir. Talvez não voltasse a ver aquele olhar apaixonado pela simplicidade do mundo. Talvez a tivesse perdido de vez. Talvez fosse algo bom. Talvez, assim, ela pudesse ser feliz. 

Contudo, sentia, ainda, aquele vazio no peito, aquela força que, apesar de enfraquecida com o tempo, a consumia, deixando-lhe a apatia. Isso irritava-a. As suas emoções latejavam, ainda, no corpo como se tratassem de uma ferida mal curada. E não sabia, até recentemente, ser possível ouvir o seu coração gritar em ecos, cada vez que o via. Preferia não o ter descoberto. Respirou fundo. Tentava inalar a melodia que tocava, expirando tudo o que a perturbava. Encontrava-se, finalmente, sabendo que, em breve, seria apenas sua, de mais ninguém. 

Ou talvez ela se tivesse entregado a outra pessoa. Seria possível? Seria possível que o tivesse esquecido assim? Tão rápido? Ela parecia feliz… Sem ele… Mas não fora por isso que lhe mentira? Para poderem ser amigos sem a magoar? Mas tinha-a perdido a ela e à sua amizade. E não lhe podia dar mais de si, sabia-o. Mas… aquela rapariga impossível tinha-se tornado grande parte de si e tinha mudado quem era. E assombrava-o... Empurrou a roupa para trás. Merda. Tinha feito merda.

Vestiu o casacão de inverno, pegou no guarda-chuva e saiu de casa. O dia estava maravilhosamente frio. Voltou a sorrir. 

Apressou-se a sair de casa. Estava atrasado. Parou antes da passadeira, perdendo-se nos seus pensamentos, enquanto via os carros passar. Paralisado olhou para o telefone. Respirou fundo. Digitou um “Olá” que, prontamente, apagou. Voltou a respirar fundo uma ou duas vezes. Sentiu a chuva a lavar-lhe o rosto e a levar-lhe o medo. “Olá”, voltou a escrever. Desta vez, enviou a mensagem. 

Parou já a meio do escadório. O seu telefone tinha tocado. 


(Capitulo 19,20,21 no blog)

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