De repente em Norwich

agosto 10, 2019



Há uns meses atrás, recebi um convite da Maureen (uma das mulheres mais extraordinárias que conheci) para ir cantar a Norwich, no Reino Unido. Aceitei, prontamente, apesar de nunca ter viajado sozinha e de todas as questões relacionadas com a minha ansiedade. Mas a balança tem de tender para o que nos faz felizes porque é o que levamos connosco da vida. E não podia ter feito decisão mais acertada.

Não vou mentir, a semana que se antecedeu à viagem foi a mais caótica possível a nível emocional. O medo de não ser boa o suficiente, de não estar ao nível do que pretendia (porque sou extremamente perfecionista e exigente comigo mesma), o medo de viajar sozinha e ir para um sitio onde nunca antes tinha estado, chegaram como uma tempestade numa noite de verão. Andei ao ritmo da trovoada que trazia dentro de mim, tentando impedir que se dispersasse para todos os aspetos da minha vida. Foi só quando as chuvas caíram que me obriguei a terminar os preparativos da viagem, neste que foi último dia em Portugal. O sol nasceu às duas e meia da manhã de dia 31 de julho e, depois de 7 horas de viagem, dei de caras com um par de olhos conhecidos a sorrirem para os meus. Tinha chegado à estação de comboios de Norwich e a casa.



Plantation Garden 

O primeiro dia em Norwich foi passado a conhecer o bar onde iria cantar (Frank’s Bar), a conhecer os principais edifícios perto da casa do Miguel, ir à Catedral de S. João Baptista (Norwich tem duas catedrais), ao Plantation Garden, beber chá na Assembly House - onde ainda irei cantar um dia -, e jantar no Thai Lanna, um restaurante tailandês excecional. Foi neste dia que conheci a Maureen, que identifiquei imediatamente como um exemplar de “a mulher que quero ser quando for grande” e que me recebeu como se me conhecesse desde sempre e me tratou como se fosse família.



Plantation Gardens, Cathedral of Saint John the Baptist, Assembly House

O segundo dia foi o dia da minha grande estreia em palco. Acordamos cedo, passeamos até chegar a uma loja de antiguidades onde nos derretemos com os livros, almoçamos no mercado (no coreano Dim Sum e na barraca chilena Taste of Chile) e passeamos junto ao rio até chegarmos à Catedral de Norwich. O que me surpreendeu mais, para além da beleza da catedral, foi o facto de, em Norwich, ser muito comum as igrejas abrirem-se para festividades, teatros, concertos e comércio (com lojas dentro das próprias igrejas), passando a mensagem que a igreja é casa de todos e não só de Deus, que se respeita em silêncio, aproximando-se, assim, a igreja da comunidade. Visitamos o Castelo e Galeria de Arte de Norwich, onde decorria uma exposição Viking e onde se encontra a galeria de historia natural (a minha parte favorita). Já no Frank’s, conheci todos os colegas de trabalho do Miguel que, mais uma vez, me trataram como se fossemos amigos de longa data e foram uma primeira plateia incrível, tentando decifrar o português das músicas que levei e batendo palmas com entusiasmo no final de cada canção. Foi uma noite que nunca irei esquecer.





Norwich Cathedral, Norwich Castle & Art Gallery and other beautiful places


Frank's Bar

No dia seguinte, a atuação seria numa festa privada em casa da Maureen. Ajudamos nos preparativos desde cedo, tendo tempo, também, para almoçar o melhor falafel da minha vida no Green Grocers e visitar o instituto de investigação do Miguel, o John Innes Center, onde tive a oportunidade de voltar a ver alguns dos seus colegas e a Beth, de quem já trazia saudades do ano anterior.


John Innes Center and Earlham

A noite foi indescritível. Toquei e cantei para um grupo seleto, num ambiente mais formal, para um publico apreciador de arte de música e extremamente afável, caloroso, que me fez acreditar que sou realmente boa no que faço. Fiquei com a ideia que não há uma pessoa antipática em Norwich porque nunca fui tão bem tratada na vida. Mais ainda, tive a oportunidade de partilhar o palco com o Francesco Pepe, um músico italiano, com o dom de tocar piano “do coração e não da cabeça”. O Francesco é excecional no que faz e tratou-me como se eu o fosse, também, no que faço. Sei que vamos voltar a tocar e cantar juntos um dia!

Maureen's Portuguese Party

Sábado foi o dia de ir tomar pequeno almoço com o Ben e com o Greg (que espero voltar a ver em Portugal em breve) e andar no barco do John e da Christine, que me acompanharam em ambas as atuações, cedendo-me a sua guitarra para os dois dias. Para além do passeio maravilhoso de barco pelos Norfolk Broads - onde recebi aprovação como piloto do barco -, trago um carinho enorme por este casal que acredita que devia ir viver para Norwich por me enquadrar tão bem com as pessoas de lá - e eu também acho! Depois de me maravilhar com a beleza natural dos Broads, fui jantar com o Miguel e com a Maureen ao turco Haggle - tão mas tão bom - e beber um cocktail nos Rooftop Gardens, com a melhor vista da cidade à noite.  


Norfolk Broads

Rooftop Gardens

O último dia foi passado junto ao mar a ver as famosas Horsey seals de Norfolk! Claro que elas estavam todas felizes na água e não as vi na praia, devido à quantidade de pessoas que lá estavam, mas valeu totalmente a pena! Almoçamos o melhor caranguejo de sempre em Winterton no Fishermen’s Return e voltamos para casa. Estava na hora de partir para Portugal e voltar para a realidade.







Horsey

Fishermen’s Return

Comecei a acordar do sonho já na viagem de comboio para o aeroporto, feliz e grata por tudo o que vivi em Norwich e deixando despertar tudo o que deixei adormecido por estes dias. Trouxe uma imensidade de experiencias que me fizeram reavaliar toda a minha vida e pensar no futuro que quero para mim. Esta foi a melhor e maior aventura da minha vida, muito porque fui ter com o meu amuleto em forma de pessoa, no momento em que mais precisava dele, e porque venci todas as minhas inseguranças e medos. Só tenho de agradecer a todas as pessoas que conheci e que me receberam da melhor maneira em Norwich e a todas as pessoas que me apoiaram incondicionalmente em Portugal e me obrigaram a ir quando comecei a questionar a minha decisão. Porque é como alguém me disse “essas coisas que te fazem sentir medo ou o que seja também são as coisas que te fazem melhor”. Não podia ter mais razão.



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