De repente a uma semana dos 28

fevereiro 26, 2019



Desde os meus 24 anos, não me lembro de um aniversário em que não tenha passado por uma crise de choradeira. À medida que esta semana vai passando, não me cheira que o dia em que vou celebrar 28 anos será diferente. A verdade é que sempre pus demasiada pressão em mim. Em fazer a festa perfeita, em celebrar o dia da melhor maneira, em fazer os outros felizes no meu dia. Sim, porque cozinhar para a minha família e amigos é o que me traz a maior alegria. Ver a satisfação deles é o ponto fulcral do meu aniversário. Quem me conhece sabe que sou extremamente exigente comigo, seja no que for, e nunca estou ao nível daquilo que gostaria. Há medida que os anos passam, o meu aniversário torna-se o festejo anual em que revejo tudo em que falhei, tudo o que não fiz, e me consciencializo do quão se distanciaram todos os planos que estipulei para a minha vida.


Apesar de pouca gente o saber, o meu sonho nunca foi ser cantora (nem acampar no Gerês, para quem pensou nisso). Sempre quis ser cantora a nível profissional, mas o meu foco de vida nunca foi este. De longe. O meu sonho de vida, e quem cresceu e conviveu comigo sabe, sempre foi ter uma família. Sempre foi gostar incondicionalmente de alguém e ser mãe. Para além de, no que toca ao amor, partilhar as minhas crenças com o Christian do Moulin Rouge (e ouço agora uma voz no fundo da minha cabeça a gritar “The greatest thing you'll ever learn is just to love and be loved in return”), lembro-me de andar no ensino básico e conversar com a minha melhor amiga sobre o meu desejo de ser mãe cedo, ao contrário de quase todas as minhas amigas da altura. A Ana de 13 ou 14 anos adorava ser mãe aos 18. A Ana dos 18 anos queria, com todas as forças, ser mãe aos 25, sendo esse o motivo da crise de choradeira nesse aniversário. A Ana dos 27 decidiu não pôr prazos na vida e este não é, de todo, o melhor momento para pensar nisso. Apesar de querer ser mãe um dia, este já não é, sequer, um desejo para um futuro próximo. 


A verdade é que tenho um instinto muito forte de cuidar dos outros. Contudo, várias das minhas desilusões advêm deste instinto. Somos ensinados, desde pequenos, a seguir o lema: “trata os outros como gostarias que te tratassem a ti”, mas ninguém nos avisa que as pessoas não são iguais e que o retorno, na maioria das vezes, não é o esperado. Esqueceram-se de nos preparar para os baldes de água fria que recebemos, constantemente, de quem toma a nossa atenção como garantida, porque, quanto mais dás, menor é a necessidade de retorno. A tua preocupação torna-se um dado adquirido. O que aprendi no último ano foi que há alturas da vida em que apenas dependemos de nós próprios, que, antes de cuidar dos outros, temos de cuidar de nós e nos valorizar porque, sinceramente, mais ninguém o vai fazer. Acabei por me tornar a minha prioridade, comecei a exigir o respeito que mereço e aprendi que deveria começar a “tratar de mim como gostaria que me tratassem”. Não vale a pena regar plantas de plástico.  


Agarrei-me ao vicio de ser independente. Aos meus concertos privados na hora de lavar a loiça, às maratonas de séries no sofá, aos meus bolos de chocolate pelos mais variados motivos, ao pilates às dez da noite. O sabor da liberdade é um dos maiores prazeres que experimentei. Claro que é infinitamente melhor quando partilhado, mas também estou genuinamente bem assim. Nunca pensei ser capaz de viver sozinha por causa de todos os meus problemas relacionados com a ansiedade e estou extremamente orgulhosa de mim por me safar tão bem. Acredito que aprender a viver comigo e a cortar dependências emocionais foi o ponto essencial para "curar" a minha ansiedade. Claro convivo, diariamente, com um possível ataque de nervos iminente, mas faz parte de ser adulto. Não podemos ter tudo sob controlo, não podemos ser perfeitos, e aceitar isto é inevitável para se viver feliz.


Daqui a uma semana faço 28 anos. Isto foi o que aprendi aos 27. Assim, faltam, apenas, dois anos para os trinta, mas dois anos parecem-me uma imensidão de tempo onde tudo pode acontecer e não me sinto, de maneira nenhuma, mais "velha". Este ano, não estou preocupada com envelhecer, não estou preocupada com o que não vou concretizar, não tenho planos para o futuro. Estou contente por fazer anos, pelo que realizei no últimos 365 dias e pelo que aprendi. Cheira-me que vou chorar no dia 5 de Março e que vai ser por estar feliz com quem gosto.

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