Bullying
setembro 23, 2018
Um dia destes, estava a falar com
a minha avó quando ela me disse, não sei em que contexto, que a minha prima
estava a fazer dieta porque os miúdos da escola gozavam com ela. A primeira
coisa que me veio à cabeça foi “ela não é gorda, nem devia estar a fazer dieta
porque gozam com ela…. Quem está errado são os outros miúdos…”, a segunda foram
as memórias de todo o meu percurso escolar.
Não vou entrar em detalhes. Não
vou dizer nomes. Não quero expor ninguém.
Tudo começou quando entrei no quinto ano, quando mudei de
escola e fiquei numa turma de miúdos que não conhecida de lado nenhum, tirando
duas pessoas. Uma das quais, ainda hoje, não consigo perdoar. Tinha uma
adoração do tamanho do mundo por um miúdo que não me suportava. Até aqui, tudo
bem (eu também não suporto muita gente). Esse miúdo era amigo dos piores da
escola e foram esses que deram cabo da minha pré-adolescência. Eu era uma miúda
com excesso de peso e altamente míope. Decidiram, então, que devia ser
conhecida como a gorda. Achavam, também, que era divertido inventarem histórias
sobre mim (chegavam mesmo a dizer-me: “vou dizer a x que disseste tal sobre ele(a)”
e riam-se), ou culparem-me de zangas entre pessoas, nas quais nem estava metida.
Por isso, era também conhecida como mentirosa. A maior parte das pessoas da
minha turma já me detestava, tirei a minha primeira negativa por causa desta
situação, e, com a popularidade dos miúdos a crescer, mais gente se juntava à
história. Um aluno de outra turma decidiu chamar-me Doraemon (por ser redonda
como o desenho animado). Doraemon foi o meu nome durante os restantes anos da
escola.
Ainda no sexto, lembro-me de uma professora ter decidido
passar um exercício pela turma chamado “Quem sou eu? O que pensam de mim?” em
que cada aluno tinha de escrever uma frase sobre determinado colega numa folha.
Nunca me custou tanto ler algo na vida e guardo a minha folha até hoje.
No verão do meu 4º ano
Comigo, isto “acabou” quando um dos rapazes que gozava comigo
reprovou saiu da minha turma, e quando outro tentou gozar com a minha irmã. Uma
coisa é meterem-se comigo. Com a minha irmã ninguém se mete. Dei um pontapé ao
miúdo, numa zona que sabia que lhe ia doer e recebi um raspanete da diretora de
turma à frente da turma toda. Isto revolta-me até hoje. A minha mãe foi
consecutivamente à escola falar com ela do que se passava comigo, nunca a vi
reclamar com ninguém à frente da turma, nem quando me atiravam ao chão ou me riscavam
roupa.
No verão do meu 5º ano
A escola EB 2/3 André Soares, foi, de facto, a pior escola
em que poderia ter andado. Há uma enorme incompetência no que toca ao assunto
do bullying (e não só). A minha irmã, por exemplo, andou, também, nesta escola.
A minha irmã passou pelo mesmo, se não pior. No caso dela, chegaram ao ponto de
criar um blog com fotografias dela, que lhe tiravam nas aulas, a gozar com ela.
A minha irmã que é uma das melhores pessoas, das mais puras, das mais inocentes
que conheço. A minha irmã, ainda hoje,
não se consegue, sequer, despir à minha frente, por causa dos complexos. Não se
consegue expor. Não tira fotografias. Tal como eu, a minha irmã não vai à praia
ou à piscina com amigos. A minha irmã chegou quase ao ponto da anorexia. E, com
ela, o bullying só parou quando começaram a pegar com o meu primo. Tal como eu
me revoltei quando foi com ela, ela também se libertou da frase “Ignora. Se
ignorares eles vão deixar de gozar contigo” – que é a maior mentira de sempre.
Tal como eu e como a minha irmã, tenho vários amigos que
passaram por situações semelhantes. O excesso de peso, o aspeto “nerd”, os problemas
de visão e de audição, todos foram motivos de piadas. Piadas que marcaram estas
pessoas para a vida.
Hoje, ainda não sei lidar com elogios. Não sei acreditar neles,
nem sei como responder. Tenho uma autoestima extremamente frágil. Não acredito
nas minhas capacidades. Como já disse, não vou à piscina pública nem à praia
com amigos. Faço um esforço enorme para me expor e basta um comentário menos
simpático para me retrair. Demorei imenso tempo para conseguir cantar em
público, sentindo-me minimamente confortável, mesmo sendo a coisa que mais
gosto de fazer. Continuo sem acreditar que as pessoas se vão interessar por mim
pela minha aparência. E sei que o que passei foi em parte responsável pela
primeira manifestação da minha POC tão cedo, aos 12 anos.
Por isso, a todas as pessoas que, em algum momento da nossa
vida, acharam divertido fazer piadas sobre nós ou inventar histórias ou
simplesmente decidiram que determinada alcunha nos ficava bem, foi isto que
fizeram connosco. Foram estas as sequelas que deixaram.
Eu a cantar em público, uma das coisas mais difíceis para mim.
A todas as pessoas que passaram ou estão a passar por uma
situação semelhante, o bullying vai passar. Vai mesmo. Vão fazer amigos que vão
durar para a vida, e é neles que têm de acreditar. A vossa vida vai mudar. Não é
o vosso peso, a vossa aparência, os vossos gostos que estão errados, são os outros
que estão. E não têm de ignorar, respondam. Façam-se ouvir! Ninguém tem o
direito de gozar com ninguém, se não gostaram daquela piada, digam! Eu, por exemplo,
tenho amigos extraordinários, fui feliz no secundário, na universidade, tive um
namorado que gostava de todos os centímetros de mim. Estou no terceiro ano do
meu doutoramento em envelhecimento e doenças crónicas e faço aquilo que mais
gosto: cantar.
O mais importante é:
aprenderem a gostar de vocês mesmos e, sobretudo, acreditarem em vocês. A
opinião dos outros não vale nada, principalmente se for para vos deitar abaixo. Porque já diz a música:
"When the sharpest words wanna cut me down
I'm gonna send a flood, gonna drown them out
I am brave, I am bruised
I am who I'm meant to be, this is me
Look out 'cause here I come
And I'm marching on to the beat I drum
I'm not scared to be seen
I make no apologies, this is me"
I'm gonna send a flood, gonna drown them out
I am brave, I am bruised
I am who I'm meant to be, this is me
Look out 'cause here I come
And I'm marching on to the beat I drum
I'm not scared to be seen
I make no apologies, this is me"
P.S: Nem todas as pessoas foram más comigo durante todo
aquele tempo, guardo várias no coração. E como sinto que lhes devo agradecer, ou
pelo menos dizer que penso nelas com carinho, enumero as raparigas que foram
comigo para o secundário (principalmente as que se tornaram as minhas melhores
amigas na altura) e ao rapaz que brincava comigo nos ferros até ao sétimo ano.
Vocês fizeram a vida valer a pena.



8 comentários
Fantástico. Beijinhos
ResponderEliminarObrigada ❤️
EliminarMuito bom. Este texto mostra o quanto há a fazer nas escolas a respeito do bullying e outras matérias semelhantes.
ResponderEliminarParabéns pela coragem :)
Obrigada Carlos ❤️
EliminarFui vítima de bullying, tal e qual como tu. Inventavam tretas e depois era sempre eu que dizia, ora era porque era gorda, pra era porque tirava 5 a matemática, etc etc. Ainda hoje não me consigo relacionar com pessoas. Não tenho amigos. Neste momento estou com uma depressão, derivado ao excesso de peso. E esta a ser difícil.
ResponderEliminarUm beijinho
Olá Joana, obrigada pelo teu comentário e por partilhares a tua história :) tal como tu, também já tive depressão. De momento estou "curada" depois de quase 2 anos de tratamento. Por isso, podes acreditar que vai passar, que vais ficar bem :) o importante é ter um bom acompanhamento!
EliminarQuanto aos amigos, percebo totalmente que seja difícil confiar em pessoas, mas o bullying aconteceu quando éramos crianças, as pessoas crescem, mudam. Eu tenho óptimos amigos agora, so tive de aprender a abrir-me e confiar. Vais ver que vai tudo melhorar ❤️ obrigada, mais uma vez, pelo comentário ❤️
Eu também sofri de bullying durante a primária até ao oitavo ano, porque uso aparelhos auditivos e era gorda e a minha fala tinha muitas falhas, não conseguia dizer s, t, x, z, e ainda hoje tenho algumas dificuldades. Ainda guardo rancor dessas pessoas, porque não percebo porque eles davam tanto importância a uma pessoa que ficava sossegada num canto. Mas tudo mudou quando eu reprovei de ano no oitavo ano e conheci boas pessoas, eles aceitaram como eu era e isso surpreendeu-me bastante.
ResponderEliminarHoje eu passo por essas pessoas que gozavam comigo e sinceramente, não saíram muito melhor que eu, e quando olho para o passado, eles não eram nada de especiais, apenas eram burros que estavam aborrecidos e eu era o alvo mais fácil e não fazia queixas.
Olá Cláudia! Obrigada por partilhares a tua história :) Eu acho que também era um alvo fácil por isso mesmo, deixava-me estar, não fazia queixas. Mas muitos dos professores sabiam e não faziam caso, também. Em educação física, por exemplo, era notório que ninguém me escolhia para as equipas. Mas não éramos nós o problema. De todo. Os outros miúdos é que erraram connosco. A verdade é que a maior parte deles agora não foi muito longe na vida e eu estou bastante bem com a minha (não que fique contente com a desgraça dos outros). Beijinhos e, mais uma vez, obrigada!
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